domingo, janeiro 29, 2006

Caracas, esqueceram de nós

A América Latina não entrou na pauta dos grandes temas que estiveram em discussão no Fórum Econômico Mundial. Os empresários brasileiros, em Davos, têm vergonha do Brasil. Brasileiros estão sem assunto nas rodinhas de Davos. E por aí afora vai. Essas são algumas manchetes de jornais dos últimos dias, ao comentar o encontro dos grandes empresários do mundo, que se realiza anualmente, na cidade de Davos, na Suiça.

Enquanto isso, no hemisfério Sul, na cidade de Caracas, o Brasil apresenta mais de cem diferentes relatos, de programas e experiências alternativas de desenvolvimento social, implantadas no país nos últimos anos. Centenas de brasileiros, representantes das organizações da sociedade civil, orgulhosos de vestir a camisa verde-amarela, disputada à tapa nas tendas de discussões temáticas, estão roucos de tanto falar. Coisa boa e muita bobagem também, mas isso faz parte de quem está arriscando caminhos nunca dantes navegados.

São dois encontros e duas visões de mundo bem diferentes. Para entender o que está acontecendo, vamos precisar ir por partes, como bons investigadores. Primeiro, vamos tentar entender porque o Brasil foi barrado no Fórum Econômico Mundial. Se é que foi. Depois, num próximo post, retomamos o assunto para tentar entender esse Fórum Social Mundial e a cabeça dos bichos doidos que pintam por lá. Será que é mesmo possível um mundo novo? Uma globalização do bem?

A onça ainda vai pegar

Desde 1971, todo mês de janeiro, os representantes dos países mais ricos do mundo se reúnem na pequena cidade de Davos, na Suíça, para discutir a economia global e suas perspectivas de crescimento. Mais do que isso, buscam formular uma agenda que possa influenciar, nos doze meses seguintes, lideranças políticas e econômicas de todo o globo. Batizado Fórum de Gerenciamento Europeu, com a sua expansão e participação de novos países, foi renomeado passando a se chamar Fórum Econômico Mundial (FEM).

Nos últimos anos, a América Latina e o Brasil em especial conquistaram espaço, mesmo que timído, na pauta deste evento, introduzindo a discussão de temas econômicos de interesse dos países emergentes e dos países pobres. Os países emergentes são aqueles com desenvolvimento social e econômico médios, mas com grande potêncial de expansão. Os pobres, claro, são os pobres. Aqueles que não têm ainda um projeto de desenvolvimento nem desenhado e nem a natureza para ajudar a minimizar essas carências.

Em 2003, um dos ícones mundiais do mercado financeiro, Goldman Sanchs, apresentou um estudo que previa para as próximas décadas, até 2050, o surgimento de quatro novas potências mundiais: Brasil, Rússia, Índia e China. O grupo foi apelidado de BRIC e fez muito sucesso na edição de 2004 do FEM, fortalecendo a posição do Brasil neste encontro e, por tabela, de toda a América Latina.

Mas agora, neste ano de 2006, o Brasil foi jogado para escanteio e, junto com ele, todos os seus vizinhos da América Latina. A justificativa para essa exclusão foi o baixo Índice de Competitividade da economia brasileira, diagnosticado por meio de uma pesquisa realizada pelo próprio FEM em mais de 100 países do mundo. O Brasil teria perdido oito posições no ranking dos mais competitivos, desempenho influenciado pelos escândalos de corrupção fartamente denunciados no país, durante todo o ano de 2005.

Pelo menos é isso que eles dizem. A Secretaria do Tesouro Nacional do Ministério da Fazenda está divulgando um outro estudo, no entanto, que mostra dados bem diferentes desse. Dando um desconto, para tirar o verniz do discurso oficial, ainda assim, é um documento que mostra um Brasil bem diferente. O estudo, intitulado “O Brasil virando onça” está disponível na página do Ministério da Fazenda para quem tiver paciência e interesse de ler.

Assim é se lhe parece

Que fomos barrados no Davos Fashion Week, não resta dúvida. Mas será mesmo que a América Latina está fadada a um destino semelhante ao da África de hoje, um continente em processo de extinção? Será mesmo que as empresas brasileiras perderam competitividade no mercado internacional? Será mesmo que os escândalos de corrupção, envolvendo políticos, empresários e agentes públicos, infringem as regras de participação neste glamuroso encontro?

Para responder essas perguntas, precisamos compreender um pouco mais sobre o funcionamento e objetivos desse tão falado Fórum Econômico Mundial. A revista Discutindo Política, da editora Escala Educacional, na sua primeira edição ainda nas bancas, trouxe um artigo muito interessante do mestrando em Filosofia pela USP, Luciano Pereira. No artigo ele conta tudo que queríamos saber sobre Davos e tínhamos vergonha de perguntar.

O FEM surgiu num contexto em que predominavam políticas protecionistas muito fortes. O comércio internacional era inibido pelas elevadas taxas de importação, adotadas pela maioria dos países, com o objetivo de proteger seus mercados internos. O pequeno grupo de empresários, representantes das maiores corporações mundiais da época, mobilizados em torno do recém criado FEM, passou a discutir este cenário com mais profundidade e a buscar alternativas para romper essas barreiras.

Depois de alguns encontros, aprovaram uma pauta mínima de reivindicações, voltada para a defesa dos interesses da iniciativa privada. Entre esses tópicos, estava a defesa do livre fluxo de mercadorias por todos os países capitalistas. E, de tanto repetirem sua ladainha, conseguiram a adesão de novos membros e a transformação da sua pauta de prioridades na bíblia do mercado deste nosso mundo contemporâneo. É o que conhecemos hoje como sendo o “pensamento único” ou o “pensamento neoliberal”.

E quem representa o FEM hoje? Os membros do Fórum Econômico Mundial são, na sua maioria, empresários ou executivos das maiores corporações do mundo. Um universo relacionado, portanto, com o da iniciativa privada. Luciano Pereira, em seu artigo, explica que a função desta entidade, hoje já constituída, é a de aglutinar forças políticas e engajar os executivos das grandes corporações em torno de seu programa, cujo objetivo é o de identificar os impedimentos para a livre iniciativa e o comércio global, além de sugerir formas de romper ou contornar tais obstáculos.

Com tal inspiração, não é mesmo de se estranhar a ausência da América Latina nesta praça, principalmente neste momento. Não que nossas empresas sejam carta fora do baralho. Pelo contrário, tem muita gente de olho nelas. Mas como, então, a nossa presença poderia incomodar os participantes do FEM? Essa é a pergunta.

Globalização do bem

Talvez, quem sabe, não seria porque estamos começando a trilhar novos mares? Mares nunca dantes navegados? A América Latina está vivendo um capítulo muito especial da sua história. Essa é a primeira vez que se configura um cenário favorável ao diálogo entre os países da América Latina. Que surgem condições concretas para se conceber um projeto conjunto de desenvolvimento para todo o continente.

Não é um projeto voltado apenas para a unificação de mercados, mas um projeto de diálogo entre culturas diferentes, mas irmãs. Um projeto autônomo que, se não contraria de todo a cartilha de Davos, a ela não se submete. E é aí que o bicho deve estar pegando. É claro, o projeto não está pronto e muito menos acabado. Nem sabemos se será bem sucedido, mas está sim ganhando contornos mais definidos e é isso que Davos deve estar enxergando.

Além disso, o Brasil tem aparecido no cenário mundial como uma liderança importante dos países emergentes e dos países pobres. Tem feito, com relativo sucesso, a “articulação dos países do Sul para questionar as regras vigentes no mundo, em muitos casos danosas aos países pobres e aos países em desenvolvimento”, como lembrou o secretário-geral da Presidência, Luiz Dulci, no Fórum Social Mundial. Para ele, a integração latino americana e dos países do hemisfério Sul é uma nova forma de internacionalismo.

Uma globalização do bem? Isso ainda vamos ver. Mas não será que essa posição do Brasil e da América Latina é que está incomodando os capitalistas de Davos? Será que ao nos deixar de fora da festa não estão querendo nos passar o recado de que Davos não aceitará novos clubes operando no mercado mundial? Será que essa não é uma forma de minar nossos esforços, ainda no nascedouro? São questões para se pensar, né?

25 de março

Os técnicos do Fórum Econômico Mundial afirmaram pomposamente que a ausência do Brasil em Davos neste ano se deve à perda de espaço ou expressão que o país também sofreu no mercado mundial. Basearam-se em pesquisa conduzida pelos próprios. Mas será mesmo?

Olhem que engraçado. Desde 2001, as exportações brasileiras apresentam resultados positivos crescentes. As vendas do Brasil no mercado internacional já passaram de 58,2 bilhões de dólares em 2001 para 96,4 bilhões em 2004, consolidando uma tendência favorável às empresas exportadoras que operam no país.

Além da elevação do preço das comodities (soja, minério de ferro e assim por diante) e a inclusão de novos itens na nossa pauta de exportação, contribuiu para essa boa performance, principalmente, a conquista de novos mercados, como a China, que já é o 3º maior mercado para os produtos brasileiros. A Índia, Arábia Saudita, Irã, África do Sul e Federação Russa são outros países que passaram a consumir produtos made in Brasil.

Será mesmo, então, que perdemos competitividade? Como assim? Porque então mais e mais consumidores buscam os nossos produtos? Estamos nos tornando uma grande 25 de Março, aquela rua de São Paulo que concentra o maior movimento de comércio da América Latina. Tudo bem, a China está ficando cada vez mais poderosa, se tornando o grande fornecedor do shopping center mundial. Mas, no mais, a China está desbancando não é só o Brasil não. Muita gente boa está ficando pra trás junto conosco. Mas essa é outra conversa. A pergunta agora é a seguinte: será mesmo que nossas empresas estão perdendo expressão no mercado mundial?

Somos todos suspeitos

Outro argumento disparado pelos analistas de Davos para explicar a ausência do Brasil no FEM diz respeito aos escândalos políticos que sofremos em 2005. Para eles, a crise política brasileira prejudicou a imagem do setor público, minou a confiança dos homens de negócio nos funcionários públicos e desviou a atenção dos responsáveis pelas políticas das tarefa de preparar o Brasil para enfrrentar o desafio da crescente competição internacional.

Seria sério se não fosse cínico. Durante o ano de 2005 o Brasil não foi o único país do mundo a enfrentar problemas de corrupção. Estados Unidos, Japão, Alemanha, França e muitos outros enfrentaram a mesma praga e nem por isso foram barrados no baile. Além do mais, o impacto desta crise na economia brasileira só veio a ter alguma repercussão nos indicadores do último trimestre do ano e foi bem menor do que todos nós temíamos.

O fato é que a América Latina tem conseguido, que seja a duras penas, mas tem conseguido consolidar um projeto de convivência democrática que reduz muito os efeitos de crises desta natureza no desempenho da economia. Isso não quer dizer que não devamos combater com todas as nossas forças a ação de grupos corruptores e corruptíveis. Mas, como vemos em diferentes países do mundo, essa não é uma luta que se vence numa única batalha. Exige uma mobilização permanente e persistente. Por isso a sociedade brasileira continua atenta.

Então. Esperamos que algumas dessas questões que levantamos aqui os ajudem a pensar um pouco mais sobre o que significa o FEM e a ausência do Brasil nesse encontro. No próximo post, como já dissemos, vamos tratar de conhecer um pouco mais sobre o Fórum Social Mundial e pensar um pouco junto com Bernardo Toro sobre o projeto América Latina.

1 Comments:

Blogger João Daniel said...

Os organizadores do Fórum Econômico Mundial ficaram sem graça com a repercussão do tratamento nem um pouco vip que o Brasil recebeu no encontro. Ou então estão querendo fazer gracinha para os demais países da América Latina que andam mais emburrados que nós. O fato é que os organizadores do FEM vão promover um encontro especial, no próximo mês de abril, só para o Brasil. Acho que em São Paulo, claro. Hehehe. Não fazem direito da primeira vez, vão ter de repetir. Isso é que é ineficiência!

4:43 PM

 

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